Kombi, ônibus, fogão a lenha: mergulho com câmera revela cidade 'escondida' em maior lago do Sudeste

  • 02/04/2026
(Foto: Reprodução)
Mergulho com câmera revela cidade 'escondida' em maior lago do Sudeste As águas do Lago de Furnas, no Sul de Minas, escondem muito mais do que paisagens turísticas. A dezenas de metros de profundidade, cidades que foram parcialmente inundadas permanecem preservadas desde a formação da represa, um cenário que vem sendo revelado por mergulhadores que dedicam anos à exploração dessas ruínas submersas. 📲 Siga a página do g1 Sul de Minas no Instagram 📺Até o dia 10 de abril, o g1 Sul de Minas e a EPTV percorrem o Lago de Furnas na expedição especial “Travessia das Águas”, que mostra a dimensão, a importância econômica e as histórias de quem vive da água em torno do maior reservatório de água doce do Sudeste e um dos maiores do Brasil. Além das reportagens especiais no portal e de conteúdos exibidos nos telejornais da EPTV, é possível acompanhar os bastidores da expedição em um diário de bordo em tempo real. 📹 Acompanhe em tempo real os bastidores da viagem Instrutor de mergulho, Roberto Obvioslo é um dos principais nomes nesse trabalho. A relação dele com o lago começou ainda na infância, quando acompanhou o pai durante a construção da usina. “Aquele lance do lago encher e inundar algumas áreas sempre me deixou curioso para saber o que realmente aconteceu”, relembra. Mergulho com câmera revela cidade 'escondida' em maior lago do Sudeste Scubaminas Mergulho Essa curiosidade se transformou em missão. Há cerca de dez anos, já como mergulhador profissional, ele passou a buscar vestígios das antigas cidades encobertas pela água — especialmente na região de São José da Barra (MG). Rua inteira preservada O trabalho começou com buscas baseadas em relatos de antigos moradores. Aos poucos, as descobertas foram se multiplicando. Primeiro, um curral ainda de pé. Depois, ruínas isoladas. Até que veio uma das maiores revelações: uma rua inteira submersa. “A gente encontrou uma rua completa. A partir daí, começamos a mapear tudo. Marcávamos os pontos, mas sem explorar de imediato”, conta Roberto. 🌊 Cidades submersas no Lago de Furnas: A formação da represa inundou antigas cidades do Sul de Minas, cujas estruturas permanecem preservadas a dezenas de metros de profundidade. 🤿 Exploração por mergulhadores: O instrutor de mergulho Roberto Obvioslo dedica há cerca de 10 anos sua vida a explorar e documentar essas ruínas submersas. 🗺️ Mapeamento histórico: Relatos de antigos moradores ajudaram a localizar estruturas como currais, ruínas isoladas e até uma rua inteira submersa. Após o mapeamento, teve início uma nova etapa: a exploração detalhada. No fundo do lago, surgiram elementos que ajudam a reconstruir o cotidiano das antigas comunidades. Fogão a lenha, pisos, estruturas de casas e até construções praticamente intactas. “Tem casa que está inteira. Só parte do telhado desceu, mas dá para identificar tudo certinho”, afirma o mergulhador. Mergulhadores encontraram construções praticamente intactas Scubaminas Mergulho Leia também: Do camping à lancha: 5 rotas para explorar o Lago de Furnas e aproveitar o melhor de cada região Casa no meio da água? Flutuantes viram 'point' e transformam o Lago de Furnas em novo polo de experiências turísticas Sem CEP e sobre a água: ambientalista constrói casa flutuante e escolhe viver no rio em MG Furnas: lago criado para ser ‘caixa d’água do Brasil’ tem 11 vezes o volume da Baía de Guanabara e 'cidades submersas' Apesar da riqueza histórica, o objetivo não é retirar objetos do fundo do lago. O trabalho é, acima de tudo, de preservação. “O que está lá, fica lá. A gente só registra com fotografia”, explica. Uma exceção envolve a criação de um possível museu. Entre os itens já resgatados está um penico, que passou por processo de conservação para conter a ferrugem. A ideia é, futuramente, expor também uma telha, um tijolo e um pedaço de madeira — peças simbólicas da chamada "antiga Barra". Uma das descobertas mais surpreendentes foi uma ponte totalmente preservada, encontrada por acaso durante buscas por um carro que havia caído no lago. “A gente procurava essa ponte há muito tempo e não achava. Quando fomos atrás do carro, encontramos ela inteira, do jeito que era”, relata. Além das ruínas urbanas, as expedições revelam outros achados curiosos. Entre eles, uma escuna naufragada, uma Kombi, um ônibus e diversos equipamentos perdidos ao longo dos anos. 📸 Preservação em primeiro lugar: Os objetos não são retirados; o trabalho é feito com registros fotográficos para preservar o patrimônio histórico. 🏛️ Possível museu: Alguns itens simbólicos, como um penico, telha, tijolo e madeira, foram resgatados para futura exposição sobre a “antiga Barra”. 🌉 Descoberta surpreendente: Uma ponte totalmente preservada foi encontrada por acaso durante a busca por um carro submerso. Galerias Relacionadas Mergulhos extremos As explorações exigem preparo técnico avançado. Os mergulhos chegam a profundidades de até 80 metros, podendo alcançar quase 90 metros em algumas condições. “Não tem mergulho raso aqui. O mais raso é em torno de 40 metros”, explica. A visibilidade varia conforme a profundidade. Em áreas mais rasas, a água é clara, mas a partir dos 15 metros a luminosidade diminui rapidamente, exigindo o uso de lanternas. Peixes ainda podem ser vistos em níveis mais altos do lago Scubaminas Mergulho A vida aquática também muda com a profundidade. Espécies como mandi, tilápia, tucunaré e traíra são vistas em níveis mais altos, mas praticamente desaparecem nas regiões mais profundas. Nem todas as histórias relacionadas às áreas submersas permanecem apenas debaixo d’água. Em um período de seca severa, o nível do lago baixou tanto que um antigo cemitério emergiu. “Dava para ver os túmulos, tudo. Depois, a área foi desmanchada pela prefeitura”, relata o mergulhador. Histórias que emergem A construção da Usina de Furnas e a formação do lago, em 1963, deixaram marcas profundas em quem testemunhou de perto esse processo. É o caso do aposentado Abrão Alves Andrade, de 86 anos, morador de São José da Barra (MG). Ele ainda se lembra de quando o pai pediu para que ele avisasse aos vizinhos que "a água estava chegando". "Meu pai me disse: 'arreia o cavalo e vai na Barra Velha avisar o povo que a água está aí'. Mas as pessoas não acreditaram, disseram que eu era bobo e não sabia de nada", conta o idoso. O padre José Ronaldo Rocha, que morava em Guapé (MG), tinha apenas 12 anos quando tudo aconteceu. “À medida que a água ia subindo, as pessoas iam sendo retiradas das suas casas. Ficavam no grupo escolar, que era mais alto.” Moradores saem das casas que seriam tomadas pelas águas após a formação do Lago de Furnas em Guapé (MG) Redes sociais Em áreas rurais, o resgate chegou a ser feito com lanchas, balsas e até helicópteros. Ele também se recorda da demolição das construções antes da inundação completa. “Desciam tratores com cabos de aço, puxando e derrubando as casas. Era uma coisa meio desesperadora.” O impacto econômico foi imediato e severo. Terras férteis e plantações inteiras foram perdidas. “Tinha muito milho granado, muito arroz. A água veio e se perdeu tudo”, relata. Ele conta que chegou a improvisar uma jangada para aproveitar o que restava das plantações. “Fazia jangada de bananeira para buscar milho e fazer pamonha.” As aventuras, no entanto, eram perigosas. “Minha mãe brigava, porque eu entrava na água até o peito para pescar.” 'Nós pensávamos que era igual o dilúvio' José Dalton Barbosa, de 77 anos, guarda lembranças vívidas de quando, ainda menino, viu uma cachoeira desaparecer sob as águas. “Eu morava na roça, à margem do Rio Sapucaí, em Guapé. Tinha uma cachoeira, uma coisa linda”, recorda. Segundo ele, o lugar tinha um desnível de cerca de 20 metros e era rico em peixes — cenário que mudaria completamente com o avanço da represa. No início, poucos acreditavam que a inundação realmente aconteceria. “Quando começou aquela conversa, falando que ia fechar, ia tampar tudo, nós pensávamos que era igual ao dilúvio de Noé”, conta. Initial plugin text A desconfiança só começou a desaparecer quando topógrafos passaram a medir as terras e marcar níveis de inundação. A pressa fez com que muitas perdas fossem inevitáveis. “Nós fomos pegar um caminhão de telha, quando viu, a água já tinha cercado a estrada”, conta. Animais também ficaram para trás. Até mesmo o comportamento da natureza impressionou. “As cobras ficavam na superfície da água, enroladas, com a cabeça para fora. Era muita cascavel”, relata. 🕰️ Memórias da inundação (1963): Moradores relatam surpresa, descrença e caos com a chegada das águas após a construção da Usina de Furnas. 🚜 Impacto social e econômico: Houve demolições forçadas, perda de terras férteis, plantações e animais. 🌱 Benefícios a longo prazo: Com o tempo, surgiram ganhos como turismo, agricultura mais produtiva e desenvolvimento regional. Entre perdas e ganhos Apesar das dificuldades iniciais, José Dalton acredita que, com o tempo, a região acabou se beneficiando. Ele destaca o potencial turístico e o avanço da agricultura com novas tecnologias. “Hoje as terras são muito mais produtivas”, afirma. Para o morador, sem a represa, o município teria permanecido estagnado. “Nós estaríamos lá na beira do rio ainda, como se fosse na pré-história.” Já na avaliação do padre José Ronaldo, o lago trouxe benefícios ao longo do tempo, mas à custa de um período extremamente doloroso. “Na época foi caótico. Depois o pessoal foi vendo que podia trazer coisas boas.” Ele ainda destaca a força da população que permaneceu. “É um povo que resistiu para reconstruir a cidade.” Infográfico - Usina de Furnas em números Arte g1 Veja mais notícias da região no g1 Sul de Minas

FONTE: https://g1.globo.com/mg/sul-de-minas/lago-de-furnas-travessia-das-aguas/noticia/2026/04/02/kombi-onibus-fogao-a-lenha-mergulho-com-camera-revela-cidade-escondida-em-maior-lago-do-sudeste.ghtml


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